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Espiritualidade não saudável...?! Oi?!

  • 20 de ago.
  • 6 min de leitura

Você sabia que nem sempre ‘espiritualidade' como compreendemos hoje é algo saudável?! Na verdade, quando não bem integrada, ela pode ser bastante nociva e sombria.

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Existe um nome para esse fenômeno que é resultado de uma distorção:


Spiritual Bypassing.


Há bastante tempo eu queria trazer este assunto aqui… mas apenas agora consegui concatenar as ideias de forma organizada para escrever de modo fácil e compreensível.


Spiritual Bypassing é uma expressão que ainda não tem uma tradução exata. Ela foi sugerida pelo antropólogo John Welwood no início da década de 1980, e foi utilizada para referir-se ao uso de práticas e crenças espirituais para evitar o enfrentamento de sentimentos incômodos, feridas e conflitos não resolvidos, e necessidades emocionais e psicológicas fundamentais a todo ser humano. Essa utilização inadequada das práticas espirituais, ou ‘escape espiritual’, acontece porque através de técnicas específicas um indivíduo retira-se de si e dos outros, escondendo-se atrás de uma espécie de ‘véu espiritual’. Entretanto isso não só o distancia de sua dor e das suas dificuldades pessoais, mas também da sua espiritualidade autêntica, e no fim, acaba por permanecer em um estado de bondade e superficialidade exagerada.


Alguns dos aspectos do Spiritual Bypassing são:

Desapego exagerado; entorpecimento; repressão emocional, ênfase exagerada no positivo, fobia da raiva, compaixão cega; limites mal desenvolvidos; desenvolvimento assimétrico da inteligência (a inteligência cognitiva tende a ser mais enfatizada do que a emocional e a moral); discernimento e julgamento debilitados; desvalorização do pessoal em relação ao espiritual; e sentimento de superioridade.


Anos atrás, quando comecei a ler sobre os desdobramentos do conceito de Spiritual Bypassing, percebi que é muito fácil distorcer ensinamentos espirituais, e foi difícil, em especial, porque não só comecei a reconhecer padrões em diversas pessoas conhecidas, mas por perceber alguns em mim mesma.


Perceber alguns deste traços, ou distorções, em mim foi o melhor presente incômodo que já ‘recebi’. Foi a oportunidade que ganhei de corrigir o que estava inadequado, e desenvolver-me de maneira inteira: pessoa e espírito. Afinal, matéria e espírito, em nossa experiência humana, encontram-se juntos; a separação quem faz somos nós.


A partir do estudo do conceito, da auto-observação e da observação de outros, trouxe uma lista com 9 ‘coisas' espirituais que as pessoas fazem, e que sabotam o seu desenvolvimento.


** Por favor, não fique chateado ou envergonhado se perceber que você se encaixa em uma, ou mais, das tendências. Você não está sozinho, e isto não é diagnóstico, nem rótulo. É possível reverter as distorções e aprimorar a sua prática com o auxílio de Professores e/ou terapeutas sérios.


Tendo dito isso, vamos lá!


-Participar de ‘atividades espirituais’ para se sentir superior aos outros.

Acho que este é o ponto mais escuro e penetrante da 'espiritualidade'. Quando pessoas se acham superiores a outras apenas por serem adeptas de uma dieta vegana, vegetariana; ou porque usam cristais; ou porque visitam templos, e frequentam igrejas; ou porque fazem parte de um grupo ‘seleto’; ou porque praticam yoga e/ou meditação, ou reiki; ou acreditam ser mais iluminados porque fazem uso de psicodélicos; ou porque leram tal livro ou escritura sagrada; e por aí vai.


Gostaria de deixar claro que minha expressão nada tem de julgamento de valor quanto à participação nessas atividades, reuniões, etc. Isso é apenas uma enorme armadilha do Ego: acreditar-se superior aos outros apenas por estar fazendo práticas ‘despertas’. Ainda que muitas vezes, nem as compreenda. Essa distorção, no fim das contas, apenas inibe a verdadeira espiritualidade.


-Usar a espiritualidade como justificativa para as falhas ou faltas de responsabilidade e das próprias ações.

“É o que é.”

“Tudo acontece por uma razão.”

“É o karma da pessoa.”


Já ouviu frases deste tipo?

Elas não são sem fundamento, mas é necessário entender o seu contexto, e o seu significado muitas vezes, em vez de aplicá-las ao pé da letra.


Se negligenciamos nossas responsabilidades cotidianas, e deixamos as pessoas na mão, etc, porque na realidade ‘tudo é ilusão’;… É importante pararmos e repensar.


De modo similar, pensar que quando alguém tem um problema com o seu comportamento é porque esta pessoa não está ‘honrando a sua verdade’ ou porque ela ‘precisa crescer espiritualmente’, pode indicar que é bem difícil percebermos em nós mesmos nosso modo egoísta e impetuoso de agir.


Ninguém é perfeito. Mas será que Alguém quer ser Ninguém?!

(Aproveito para brincar com um trocadilho que traz sabedoria quando paramos para refletir)


-Adotar novos hobbies, interesses e crenças apenas porque estão na moda.

Nós humanos queremos fazer parte, pertencer… Isso faz parte da nossa natureza e é natural formarmos grupos. Mas juntar-se ao redor de um ‘líder’ e só agir com sua aprovação, ingerir ayahuasca com frequência, praticar ‘yoga' intensamente todo dia, exibir-se com itens da moda religiosa e frequentar diversos festivais não torna ninguém mais ‘espiritual’.


-Julgar os outros por expressar raiva ou outras emoções vistas como não-espirituais, ainda que esta expressão seja necessária.

Esse foi um dos primeiros sintomas que percebi, inclusive por ser uma das pessoas que expressa tais emoções quando sinto necessidade. A rejeição é tremendamente intensa!


Um ser humano não se torna mais evoluído espiritualmente porque não sente raiva, porque não é natural que o homem não sinta raiva. Todas as emoções existem e tem uma função. Encará-las, entendê-las e direciona-las de modo apropriado é o que cada um de nós deveria aprender.


Ironicamente, muitas pessoas ‘espiritualizadas' reprimem todas as emoções vistas como não-espirituais, compensando artificialmente com emoções e atos ‘espirituais’, às vezes levando-as a inautenticidade. Não raro, tais pessoas, eventualmente, passam a se ver como uma fraude.


-Usar a ‘espiritualidade' para justificar o uso desmedido de droga.

Particularmente, eu acredito que o ser humano não precisa de qualquer ‘aditivo' para se conectar com o Divino, porque creio que Deus nos criou com tudo que precisamos para chegar até Ele. Mas há quem pense diferente, e eu não entendo, mas respeito.


A questão é realizar inúmeras ‘cerimônias’, e usar substâncias psicoativas frequentemente, como bengala, e para qualquer situação emocional desconfortável ou dolorosa. Toda substância provoca consequências, sejam elas consideradas ‘espirituais' ou não.


-Good vibes only.

Esse slogan convida ao desvio do olhar dos problemas e dificuldades da vida. Os aspectos sombrios, ou negativos, da vida não desaparecem só porque resolvemos ignorá-los. Na verdade, muitos deles só pioram quando não os encaramos para resolvê-los.


Monstros crescem no escuro, mas vemos o seu tamanho real quando acendemos a luz.


Não devemos achar que devemos carregar o mundo nas costas, mas a responsabilidade que nos cabe é mais do que sadia.


-Reprimir emoções desagradáveis e vistas como não-espirituais.

Aquilo que reprimimos em nós apenas ganha mais força, e a pressão vai forçar a saída, de uma forma ou de outra.

É fácil iludir alguém a acreditar que a espiritualidade vai tornar a vida um eterno passeio em nuvens de algodão doce, e quem ensina a verdade sobre o caminho espiritual costuma ser até rejeitado. Mas fato é que a vida ainda é cheia de sofrimento e, muitas vezes, é através deles que aprendemos nossas lições mais valiosas.


-Recusar-se a diferenciar pessoas.

Abafar nosso discernimento, e porque não dizer: nossa intuição; sobre pessoas pode nos colocar em maus lençóis.


Acreditar em alguém, quando tudo em você te alerta para não acreditar, apenas porque ser ‘espiritual' implica ser tolerante e ver que todos são bons, é ingenuidade. Ser uma pessoa calorosa e acolhedora é uma qualidade humana, mas precisamos nos lembrar que devido aos níveis de degradação espiritual, educacional e cultural, é necessário desenvolver a faculdade do discernimento e usá-la. E mais, não se sinta culpado. Nós possuímos ‘instintos' de proteção. Em caso de dúvida, observe um pouco mais antes de agir ou emitir julgamento.


-Desacreditar a ciência por ser parte do sistema material.

Esse é um tema sensível atualmente. Devido ao alto nível de corrupção no meio científico é bem difícil acreditar na ciência.

Eu entendo.

Mas ainda há boa ciência, e ela merece crédito. Afinal, ainda que não prove ou demonstre tudo (e acredito que nunca o fará, por ser limitada) a ciência não está dissociada da espiritualidade, mas a seu serviço. Basta ver que, em muitas ocasiões, ela vem apresentando explicações sobre a vida em si. E a vida é criação divina!


Eu vou ficando por aqui, porque este texto ficou longo.

Espero que ele te traga discernimento e que te ajude a (re)ajustar o que quer que você necessite.


Bom trabalho!

Um beijo,

Tatiana.

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